DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA








UM QUADRO CLÍNICO OU UMA QUESTÃO DE ABORDAGEM?

Resumo - Este artigo abrangerá a questão da depressão na adolescência, fazendo um paralelo entre a visão médica e a psicanalítica. A partir daí será possível concluir se a depressão faz parte da adolescência.

Abstract - This article will enclose the question of the depression in the adolescence, having made a parallel between the medical perspective and the psychoanalytical. From then on it will be possible to conclude if the depression is part of the adolescence.

(Palavras-chave: depressão, adolescência, psicanálise, visão médica.)

Introdução 

O artigo tem como objeto de estudo o adolescente e possui a intenção de distinguir as diferentes perspectivas sobre a questão da depressão nesse período. A partir de estudos foi observado que no período da adolescência é comum a ocorrência de alguns sintomas e comportamentos atípicos, alguns deles de aspectos depressivos. Pela análise destes sintomas e comportamentos será que se pode dizer que é habitual a existência de depressão nessa fase?

Por meio deste questionamento foi possível averiguar que há uma discrepância radical entre a abordagem médica e a abordagem psicanalítica no que compete ao tema depressão na adolescência. Na abordagem médica tem-se como foco: classificar os sintomas e a partir destes diagnosticar o sujeito; enquanto que a psicanálise, através da escuta, tenta entender as razões da ocorrência destes sintomas, sendo que estes não necessariamente se caracterizam como uma patologia, podem ter uma função na economia psíquica do sujeito.

Embora o objetivo do artigo seja abranger a crise normal e mais comum da adolescência, cabe ressaltar que nem sempre as condutas apresentadas pelos adolescentes são de ordem desenvolvimental, maturativa, estruturante e transitória, mas pode haver uma eventual organização patológica à qual a psicanálise também faz menção. Assim, adentra-se no campo da psicopatologia.

Enquanto a psiquiatria clínica se constitui num ramo da medicina aplicado às alterações psíquicas, ao diagnóstico, ao tratamento e à profilaxia das doenças mentais, a psicopatologia se restringe a conhecer e descrever os fenômenos psíquicos patológicos para elaborar o conhecimento dos fenômenos com os quais a psiquiatria irá coordenar sua ação curativa e preventiva.

Como dado histórico, a psicanálise teve uma importante influência na história do estudo da psicopatologia e sendo sua contribuição principal na psicopatologia infantil, em 1909, quando Sigmund Freud publicou sua abordagem de psicopatologia e tratamento do pequeno Hans. Foi neste momento que a psicanálise como teoria passou por uma série de mudanças, do antigo modelo topográfico para o modelo estrutural, mas mesmo com essas mudanças quase todos os sintomas psiquiátricos foram explicados, no passado, em parte por várias combinações de conceitos básicos como determinismo psíquico, inconsciente dinâmico, evolução das pulsões sexuais e agressivas, conflitos psíquicos, mecanismo de defesa e transferência, constituindo o campo da chamada psicodinâmica.

Segundo Lewis e Wolkmar (1993, p. 351):

“Sintomas como dificuldades de alimentação e sono no bebê, enurese, encoprese, ansiedade de separação, dificuldades na aprendizagem e na leitura, fobias, compulsões, sintomas conversivos, depressão e psicose eram entendidos, pelos menos em parte em termos psicodinâmicos através dos anos 30, 40 e mesmo 50.”

Apoiando-se neste conhecimento, a depressão no adolescente pode ser compreendida através de quatro formas de funcionamento psíquico do adolescente deprimido: reação depressiva, depressão de inferioridade, depressão de abandono e depressão melancólica.  Segundo Marcelli & Braconnier (1989):

“Toda conduta deve ser examinada separadamente e depois recolocada no conjunto das condutas do sujeito para apreciar a harmonia e a fluidez destes grupos de condutas ou, ao contrário, sua dissonância ou rigidez. Assim tal sintoma muito inquietante inscreve-se em um sistema de condutas fluidas, tal outro, em sistema rígido e perfeitamente típico do ponto de vista psicopatológico.”

É importante analisar, por um lado, a flexibilidade oposta à rigidez das condutas, e a maneira pelas quais estas interferem no funcionamento global da personalidade, isto é, os acontecimentos atuais e a organização mental historicamente construída. Por outro lado, deve-se considerar o entrave mais ou menos importante representado por estas condutas na continuidade do desenvolvimento psíquico, isto é, uma análise prospectiva acerca das interações entre esses eventos atuais e o processo psíquico em vias de construção. Assim, pensar a conduta depressiva do adolescente deve considerar estes dois aspectos norteadores. 

No entanto, para tal procedimento é necessário retornar ao estudo do adolescente e, conseqüentemente, ao conhecimento do que é adolescer.

Abordagem psicanalítica da adolescência e seus lutos.

Este adolescer é concebido pela psicanálise como um estágio intermediário entre a infância e a vida adulta, no qual são re-vistos alguns problemas infantis. Tal etapa é caracterizada como um período de crise, de desarranjo interior. Para o psicanalista Peter Blos (1979) a adolescência é uma segunda “separação-individuação”, uma repetição dos três primeiros anos de vida, obviamente em outra dimensão, e isto vem acompanhado de ansiedade e sofrimento.

Numa abordagem histórica verifica-se nas obras de Freud, em 1905, no seu texto “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, que o adolescente vai aparecer no âmbito da sexualidade, embora ele assinale que a mesma não é característica exclusiva da puberdade. Freud cita:

"Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual, que ela está ausente na infância e só desperta no período da vida designado puberdade. Mas esse não é apenas um erro popular e sim um equívoco de graves conseqüências, pois é o principal culpado de nossa ignorância de hoje sobre as condições básicas da vida sexual...”(p.162).

Na infância, segundo Freud (1905), ocorrerá uma escolha objetal que se parece com aquela que será concluída na puberdade, ou seja, há uma grande aproximação com o que ocorrerá na puberdade, a diferença são as pulsões parciais e a sua subordinação ao primado da genitalidade que só serão estabelecidos de maneira completa na puberdade. As chances de reprodução, do encontro com o outro sexo, só ocorrerá a partir desta última etapa da organização da sexualidade humana.

Portanto, para Freud (1905), a sexualidade humana se arranja em dois tempos separados pelo período de latência. A puberdade, inicialmente, era caracterizada por Freud como o primeiro tempo da manifestação sexual no ser humano, sendo a base das neuroses, o excesso de libido ali encontrada. Com a descoberta da sexualidade infantil, pode-se analisar que a puberdade passa a ser um tempo de conclusão do desenvolvimento sexual, tempo este de um trabalho orgânico e psíquico muito forte.

Com esta nova descoberta, a organização sexual com suas escolhas objetais se completa na adolescência proporcionando uma conclusão daquilo que ficou dissociado na infância. Desta forma para o sujeito jovem, a resposta ao se deparar com o real pubertário será “adolescer”, ou seja, rearranjar traços de sua infância e de sua história familiar que resultarão em uma ficção própria. É neste momento que ele dará a significação pessoal da sua história passada e do seu projeto de vida para o futuro.

Todavia não é somente com a questão da sexualidade que o adolescente se depara neste período, mas com uma série de elaborações que irá ter de realizar para se constituir enquanto sujeito adulto. Tanto Knobel e Aberastury (1981) quanto Marcelli (1998), Braconnier (1989), Outeiral (1998), Ferreira (1997), entre outros psicanalistas abordam a questão dos lutos vividos neste período de transição.

O termo luto, segundo Freud em Luto e Melancolia (1917), designa-se como:

"a reação à perda de um ente querido, à abstração que ocupou o lugar do ente querido, como o país, a liberdade  ou o ideal de alguém e assim por diante (...) o luto profundo, a reação a perda de alguém que se ama, encerra o estado de espírito penoso, a perda de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significa substituí-lo) e o afastamento  de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele". (FREUD, 1917, p. 275)

O luto é algo normal, pois se considera que ele seja superado após um determinado lapso de tempo, diferente da melancolia que apresenta as mesmas características do luto, salvo a diminuição do sentimento de auto-estima. O trabalho de luto é considerado concluído a partir do momento em que cada uma das lembranças e expectativas isoladas (através das quais a libido está vinculada ao objeto) são evocadas e hipercatexizadas. Nesse momento, para o ego ficar novamente livre e desinibido, é necessário que ocorra o desligamento da libido em relação a cada uma das lembranças e não necessariamente ao objeto perdido.

No período da adolescência alguns autores pontuam a existência de lutos experenciados pelos jovens para que estes possam concluir as transformações psíquicas necessárias para assumirem-se como sujeitos adultos. De acordo com Aberastury (1981, p.10), nesse período de crise é necessário realizar três lutos fundamentais: o luto pelo corpo infantil perdido; luto pelo papel da identidade infantil; e o luto pelos pais da infância.

O luto pela perda do corpo infantil dá-se decorrente das mudanças biológicas típicas desse período e o indivíduo vê-se obrigado a presenciar passivamente a toda uma série de modificações que ocorre na sua própria estrutura, criando um sentimento de impotência frente a esta realidade concreta, que o leva a transferir a sua rebeldia em direção à esfera do pensamento. O adolescente vive, neste momento, a perda do corpo infantil com uma mente ainda na infância e com um corpo que vai se tornando adulto. Esse fato produz, segundo Aberastury (1981. p.81) “um fenômeno de despersonificação” que domina o pensamento do adolescente no começo desta etapa e que se relaciona com a própria evolução do pensamento.

Essa despersonificação do adolescente refere-se a uma projeção no âmbito de uma cogitação profundamente abstrata do pensamento e explica a relação instável com os objetos reais, os quais rapidamente perde, como perde lenta e progressivamente o seu corpo infantil.

O outro luto citado que o adolescente elabora é pela identidade e pelo papel infantil. Para Erikson (1971, p.241), o sentimento de identidade do Ego é a “segurança acumulada de que a coerência e a continuidade interiores elaboradas no passado equivalem à coerência e à continuidade do próprio significado para os demais”. Para Knobel (1981, p.82) o adolescente sofre nesse período um fracasso de despersonificação, uma vez que não pode manter a dependência infantil e não pode assumir a independência adulta, é por esta razão que o adolescente incumbe ao grupo grande parte de seus atributos, e aos pais, grande parte das obrigações e responsabilidades.

É por esse fracasso de despersonificação que podem ser explicadas a falta de caráter e a irresponsabilidade dos adolescentes, que levam a confrontos com a realidade, ou seja, há um contínuo comprovar e experimentar objetos do mundo real e da fantasia que se confundem também, permitindo-lhe por sua vez despersonificar os seres humanos, tratando-os como objetos necessários para seu alívio imediato. Esta desconsideração por seres e coisas do mundo real faz com que todas as relações objetais do adolescente tenham um caráter, embora intenso, frágil e fugaz, o que explica a instabilidade afetiva, com suas crises passionais e seus arrebatamentos de indiferença absoluta.

Diante desta instabilidade afetiva, das mudanças contínuas, é que se estabelecerá a identidade, seguindo um processo lógico de amadurecimento. E é neste momento que surge o fenômeno das turmas, descrito por Knobel (1981, p. 82), no qual o adolescente se sente seguro, uma vez que adota papéis mutáveis e participa da atuação, das responsabilidades e culpas do grupo.

Desta forma, é esperado que o adolescente aceite gradativamente as perdas do seu corpo infantil, da identidade e papel infantil e concomitantemente altere a imagem de seus pais infantis, substituindo-a pela imagem de seus pais atuais, num terceiro processo de luto.

Este último luto, pelos pais da infância, não se dá passivamente, uma vez que paralelamente aos lutos anteriores, o adolescente tem de realizar o luto pelas figuras e imagens correspondentes dos pais e conseqüentemente aos vínculos com elas. Os pais, por sua vez, também devem elaborar a perda da relação de submetimento infantil de seus filhos, gerando assim um duplo luto, o que não facilitará o processo da adolescência.

Marcelli & Braconnier (1989, p. 195) e Outeiral (1998, p. 160), relatam sobre a perda ou renúncia do objeto edípico incestuoso, ou seja, a desvinculação da imagem da mãe onipotente da primeira infância, que se dá nesse primeiro tempo da adolescência, e no final da mesma ocorre o luto do investimento edipiano e da dependência dos pais, o que levará a uma nova maneira de relação tanto interna quanto externamente com esses pais.

Outro autor que também aborda esse luto das figuras parentais é Chabrol (1953, p.81):

“Para o adolescente, assim como para seus pais, a maturação do corpo significa a necessidade de renunciar às relações de dependência que ativam a ambivalência e as angústias do abandono recíproco. Os desvios da segunda fase de separação-individuação prolongam os da primeira e testemunham, geralmente, que um dos pais ou os dois falharam no seu próprio processo de separação dos seus pais”.

A renúncia à bissexualidade se caracteriza como sendo a última etapa da adolescência e nela o sujeito conforma um ideal de ego conforme (ou não) a seu sexo genérico e seu meio social.

Assim, diante da análise deste processo de luto, juntamente com uma série de comportamentos tidos como sintoma, Aberastury (1981) e Knobel (1981) irão definir a “síndrome normal da adolescência”. Como para Knobel (1981) a adolescência é uma crise normativa, o mesmo analisa os seus sintomas, considerando-os uma patologia normal. Diz o autor:           
“mais que uma etapa estabilizada, a adolescência é processo, desenvolvimento e, portanto, deve-se admitir e compreender sua aparente patologia, para situar seus desvios no contexto da realidade humana que nos rodeia” (p.28)

Essa aparente patologia, que se revela por atitudes de instabilidade emocional, alternando períodos de audácia e timidez; desinteresse e urgência; introversão e extroversão e, ao mesmo tempo, por conflitos afetivos; crises religiosas; ascetismo; homossexualidade ocasional e condutas dirigidas para a heterossexualidade foram definidas como “síndrome normal da adolescência”. (Aberastury, 1981)

Essa síndrome compreende sintomas/comportamentos como: a busca de si mesmo e da identidade; a tendência grupal; a necessidade de intelectualizar e fantasiar; as crises religiosas; a deslocalização temporal; a evolução sexual desde o auto-erotismo até a heterossexualidade; a atitude sexual reivindicatória; as contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta; a separação progressiva dos pais; e as constantes flutuações de humor e de estado de ânimo.

A sintomatologia do adolescente, a busca de si mesmo e da identidade vem como conseqüência final desse processo que é o conhecimento de si mesmo como entidade biopsicossocial no mundo. O conceito de si mesmo ou self é o símbolo que cada um possui de seu próprio organismo, ou seja, é o conhecimento da individualidade biológica e social, do ser psicofísico em volta de seu ambiente. A esse conceito de self ou si mesmo, como essência psicológica, agrupa-se o conhecimento do componente físico e biológico da personalidade. Assim, o corpo e o esquema corporal são duas variáveis que se complementam para o processo de definição de si mesmo e da identidade.

No que compete ao esquema corporal, este é resultante intrapsíquico da realidade do sujeito, ou seja, é a representação mental que o sujeito tem de seu próprio corpo como conseqüência de suas experiências em contínua evolução.

Desta forma, diante deste conhecimento de si (self), com as alterações comuns na puberdade, o adolescente numa busca de identidade pode recorrer a momentos como o da uniformidade conquistada por meio da inserção em grupos, para dar-lhe uma certa segurança e estima pessoal. Não é atípico nesta etapa evolutiva o adolescente apresentar as identidades transitórias, adotadas por um certo tempo, identidades ocasionais, que se dão frente a novas situações, ou identidades circunstanciais, que são as que conduzem a identificações parciais transitórias. Essas identidades podem ser adotadas sucessivamente ou simultaneamente e vêm relacionadas ao processo de separação das figuras parentais e com a aceitação de uma identidade independente.

Simultaneamente a esta busca de si mesmo e da identidade, há a tendência grupal. Tal tendência ocorre, como já citado, devido à busca da identidade; nesta etapa o grupo adquire grande importância pois transfere para o mesmo parte da dependência tida no ambiente familiar, assim como as responsabilidades. Por isso é que o adolescente se inclina às regras do grupo em relação a moda, vestimenta, costumes, preferência de todos os tipos, etc. O grupo é importante para dissociações, projeções e identificações que seguem ocorrendo no indivíduo, e devido a tais fatores que no fenômeno grupal o jovem procura um líder ao qual submeter-se, ou não, faz-se ele mesmo em líder para exercer o poder do pai ou da mãe. O grupo de companheiros constitui, para Knobel (1981, p. 37) “a transição necessária no mundo externo, para alcançar a individuação adulta”. Depois de passar pela experiência grupal, o indivíduo poderá começar a separar-se da turma e assumir a identidade adulta.

Há também, no adolescente, a necessidade de intelectualizar e fantasiar. Esta vem como uma forma típica do pensamento do adolescente, ou seja, o jovem fantasia a realidade e a intelectualização é uma fuga para o interior, um tipo de reajuste emocional,

“um autismo positivo no qual se dá um incremento da intelectualização que leva à preocupação por princípios éticos, filosóficos, sociais que muitas vezes implicam formular-se um plano de vida muito diferente do que se tinha até esse momento e que também permite a teorização acerca de grandes reformas que podem acontecer no mundo exterior” (Knobel, 1981, p.39)

Quanto às crises religiosas é observado no adolescente atitude extrema de ateísmo ou misticismo. Períodos de negação da religiosidade são seguidos por períodos de exaltação mística. No entanto nem todos chegam a esses extremos. Alguns adotam, diante da religião, atitudes entusiasta ou indiferente. Para Aberastury (1981, p.41)

“(...) na construção definitiva de uma ideologia, assim como de valores éticos ou morais, é preciso que o indivíduo passe por algumas idealizações persecutórias, que abandone por objetos idealizados egossintônicos, para depois sofrer um processo de desidealização que possibilite construir novas e verdadeiras ideologias de vida”.

Outra sintomatologia comum nos jovens é a deslocalização temporal, que ocorre porque os mesmos têm dificuldade de desligar-se da infância e, então, procuram manejar o tempo, negando sua passagem, para conservar a criança que existe dentro de si. Assim, o adolescente terá vencido tal problemática quando aceitar a perda da infância, a morte de uma parte do ego e seus objetos, além de poder localizá-los no passado, conseqüentemente poderá elaborar projetos futuros baseados em elaborações do presente.

No que compete à evolução sexual, vê-se que o adolescente oscila permanentemente entre as atividades de caráter masturbatório, começo do exercício genital, atividades sexuais transitórias até as atividades exploratórias dos jogos eróticos. É neste período que aparece o fenômeno do “amor a primeira vista”, a curiosidade sexual expressa no interesse por revistas pornográficas, o exibicionismo e voyerismo manifestada na vestimenta, no cabelo, no tipo de dança.

Além disto, é comum na adolescência verificar aspectos de conduta femininos nos rapazes e masculinos nas moças, que são expressões da bissexualidade não resolvida. As experiências homossexuais ocasionais não devem ser consideradas patológicas, desde que tenham esse aspecto de fenômeno temporário de adaptação e não cristalizem como condutas definitivas. Tudo isso tem um caráter exploratório de aprendizagem e preparação para a futura genitalidade procriativa, com um indivíduo do sexo oposto. 

A atitude social reivindicatória pode ser a repetição na ação do que já ocorreu no pensamento do adolescente. As intelectualizações, fantasias conscientes, necessidade do ego flutuante que se reforça no ego grupal, fazem com que se transformem em pensamento ativo, em verdadeira ação social, política, cultural, esta elaboração do processo da adolescência. Para Ferreira (1997, p. 165):

“os adolescentes sentindo-se ainda uma criança que os pais procuram dominar, descarrega contra eles o seu ódio, em atitudes violentas e também contra o mundo adulto que o marginaliza e impede de encontrar o seu caminho”.

Já as contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta ocorrem devido esta ser dominada pela ação, além de ser instável porque a identidade do adolescente é transitória, circunstancial e contraditória. As projeções e identificações nas condutas são freqüentes. As contradições sucessivas facilitam a elaboração dos lutos deste período da vida e caracterizam a identidade do adolescente.

Como citado anteriormente, a separação progressiva dos pais é um processo crucial para o adolescente e este conta com o auxílio das mudanças fisiológicas para tal separação. Segundo Ferreira (1997, p.166):           
“esse período de separação será carregado de angústia, na proporção em que as experiências infantis anteriores tenham sido elaboradas. Os jovens precisam trocar os seus primeiros objetos de amor: abandonar os pais em benefício dos futuros companheiros e, finalmente, em benefício do cônjuge”.

E por fim, as constantes flutuações do humor e do estado de ânimo do adolescente que provêem do processo de constituição da identidade, o qual vem acompanhado dos sentimentos básicos de ansiedade e pressão. A intensidade e a freqüência dos processos de introjeção e projeção podem vir a fazer com que o adolescente enfrente várias variações no ânimo. E as mudanças de humor se constituem sobre a base dos mecanismos de projeção e luto pela perda dos objetos.

Segundo Knobel (1981, p.58), em síntese, a síndrome normal da adolescência é uma tentativa de “esquematizar o processo fenomenológico que permite apreciar a expressão da conduta e determinar as características da identidade e do processo adolescente”.

Até este momento foi explanado sobre a depressão na adolescência com base numa abordagem psicanalítca. Todavia, há uma outra abordagem que verifica e diagnostica esses sintomas observados no período da adolescência: a abordagem médica. Esta é amplamente incorporada por vários profissionais da área da saúde e que acaba por ampliar para a população em geral, uma vez que domina, de certa forma, o pensamento sobre a saúde humana.

Abordagem médica da depressão na adolescência

Para a abordagem médica, a depressão na adolescência nada tem a ver com os lutos que estes realizam, com as mudanças psíquicas, mas o diagnóstico de depressão ou estados depressivos são dados conforme a uma série de sintomas. Essa abordagem segue como referência o DSM IV, que é um manual para fins diagnósticos, portanto, sem preocupação de discutir as causas ou a dinâmica psíquica. 

Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) a depressão, ou os episódios depressivos só são caracterizados como tal quando o indivíduo, seja ele de qualquer idade, tiver experimentado um humor deprimido ou perda de interesse ou prazer por quase todas as atividades e, mais especificamente nos adolescentes esse humor pode ser irritável ao invés de triste. Além dessas características essenciais, o indivíduo deve apresentar quatro desses demais sintomas: alterações no apetite ou peso, sono e atividade psicomotora (agitação ou retardo psicomotor); diminuição da energia (cansaço e fadiga são comuns); sentimentos de desvalia ou culpa; dificuldade para pensar, concentrar-se ou tomar decisões; ou pensamentos recorrentes sobre morte ou ideação suicida e planos ou tentativas de suicídio.

Ainda, a presença de um sintoma deve ser recente ou então ter piorado, em comparação com o estado pré-episódico da pessoa. “Os sintomas devem persistir na maior parte do dia, praticamente todos os dias, por pelo menos 2 semanas consecutivas” (DSM-IV, 2000, p.306). Tal episódio ou estado físico deve ser acompanhado por sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento dos âmbitos social, profissional ou outras áreas consideradas importantes na vida do indivíduo.

O humor em um episódio depressivo freqüentemente é relatado pela pessoa como deprimido, triste, desesperançado ou desencorajado. Alguns indivíduos se queixam, além das queixas somáticas, de se sentirem indiferentes ou ansiosos e isso é visto por meio da expressão facial e do modo de portar-se. Muitos referem ou demonstram irritabilidade aumentada, como por exemplo: há uma raiva persistente, uma tendência para responder a eventos de ataques de ira ou culpando os outros, ou um sentimento exagerado de frustração por questões menores.

É assinalado como característica importante, no manual, a presença de um sentimento de desvalia ou culpa que pode incluir avaliações negativas e irrealistas do próprio valor, preocupações cheias de culpas ou ruminações acerca de pequenos fracassos do passado. E há relatos de indivíduos com prejuízo na capacidade de pensar, concentrar-se ou tomar decisões.

A perda do interesse ou prazer, citado acima, está presente, em algum grau na vida do indivíduo. O manual de diagnóstico relata que tal sintoma vem no relato de menos interesse pelos passatempos, o “não se importar mais”, ou a falta de prazer com qualquer atividade anteriormente considerada agradável. Há, também, segundo a percepção da família, um retraimento social ou negligência de atividades agradáveis.

A perturbação do sono vem caracterizada como a insônia tipicamente intermediária - como o despertar durante a noite com dificuldade para voltar a dormir, ou terminal que é o despertar muito cedo com incapacidade de conciliar o sono novamente.

As alterações psicomotoras incluem a agitação que são caracterizadas como a incapacidade de ficar sentado quieto, ficar andando sem parar, agitar as mãos, puxar ou esfregar a pele, entre outros; ou o retardo motor exemplificado pelos discurso, pensamento ou movimentos corporais lentificados, maiores pausas antes de responder, entre outros.

Enfim, estas classificações sintomáticas e específicas podem estar associadas a outros sintomas descritos dentro deste manual de diagnósticos das doenças mentais que podem estar relacionados a outras doenças, ou seja, dependendo do sintoma, da prevalência, da durabilidade, esta patologia pode estar associada a uma outra patologia.

Comparação entre as duas abordagens

Pode-se fazer uma comparação entre os sintomas da depressão apresentados pelo DSM-IV e a crise normal da adolescência, uma vez que os sinais da depressão no jovem são decorrentes tanto das mudanças físicas quanto das psíquicas que ocorrem concomitantemente. Assim, muitos dos sintomas apresentados são comuns em ambas abordagens, o que difere é a maneira com que estes são interpretados.

Isto pode ser constatado, como por exemplo, num dos sintomas citados no DSM-IV que é o humor deprimido ou irritável que condiz com as constantes flutuações de humor e estado de ânimo assim como com a busca de si mesmo e da identidade, sendo ambos sintomas da crise normal da adolescência. Estes decorrem de um processo de constituição da identidade que é caracterizada pela elaboração de três lutos fundamentais. Simultaneamente a estes lutos, o adolescente passa por transformações físicas e biológicas, no âmbito do corpo e do esquema corporal que levam o adolescente a apresentar estas oscilações afetivas. Sendo que no adolescente esse humor pode ser mais irritável ao invés de triste, pois nesse momento ele está realizando a separação progressiva dos pais, que demanda uma re-elaboração dos valores infantis para se constituir enquanto sujeito adulto, além de estar no processo de descoberta da sexualidade que implicará na definição do papel sexual.

As alterações no apetite, peso, no sono e atividade psicomotora estão correlacionadas com o conhecimento de si (self) uma vez que estão nitidamente interligadas com as mudanças físicas, como as hormonais e estruturais. A abordagem psicanalítica considera estas mudanças como decorrentes da ansiedade gerada pelo processo de amadurecimento, da imersão do adulto.

Em particular, a alteração no sono pode estar relacionada com a questão da noção temporal que para o adolescente se constrói em seu corpo como afirma Aberastury (1981, p.43) ao falar do tempo vivencial ou experimental: “é baseada no tempo de comer, no de defecar, no de brincar, no de dormir, no de estudar, etc”. Portanto, a alteração no sono pode estar relacionada com a deslocalização temporal presente neste período.

As dificuldades para pensar e concentrar-se ocorrem pelo fato de o jovem se desligar das atividades exteriores, na tentativa de reorganizar-se internamente, na turbulência de sentimentos e revivências das experiências infantis. A dificuldade de tomar decisões ocorre pela anterior dependência dos pais pois, na atual circunstância, o adolescente transfere parte da responsabilidade pessoal para o grupo, numa tentativa de experenciar as decisões próprias. Isto se caracteriza como a tendência grupal presente na crise da adolescência e as contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta. Condutas estas que são consideradas instáveis, uma vez que a identidade é transitória, circunstancial e contraditória.  

Os sentimentos de desvalia ou culpa originam-se da desvinculação deste papel de filho infantil para o papel de filho adulto, isto significa elaborar estes pais da infância, trocar os primeiros objetos de amor e conseqüentemente definir a sexualidade atual. Assim como os sentimentos de desvalia ocorrem pela momentânea e transitória perda da identidade infantil, desconhecimento e descontrole do próprio corpo e sentimentos.

Os pensamentos recorrentes sobre morte ou ideação suicida; e planos ou tentativas de suicídio, referem-se, segundo Chabrol (1990, p.95):

“o adolescente expondo-se à morte afirma-se como dono de si mesmo. Nega sua impotência e seu desamparo e alcança uma ilusão de onipotência. Sobreviver parece significar beneficiar-se de um julgamento ordálico positivo, realizar os fantasmas de fusão com o objetivo original totalmente bom e a união narcísica com o superego tutelar reencontrado”.

Isto significa que os pensamentos suicidas estão relacionados com a tendência a intelectualizar e fantasiar como mecanismo de defesa contra as situações de perdas sentidas como dolorosas, na busca deste equilíbrio perdido nesta etapa e na tentativa de dominar a sua própria ansiedade (Aberastury, 1981).

Conclusão

Portando, pelo fato de a adolescência se constituir como um momento de reorganização psíquica, iniciado pela puberdade e seus efeitos no psiquismo, trata-se de um momento de crise. Esta crise caracteriza-se pelo reforço da depressão subjacente que acompanha o aparelho psíquico ao longo de toda a sua existência, por interrogar acerca da identidade, da bissexualidade, por um “atropelo” das identificações anteriores e pela idealização desta “nova vida”, imaginária e inconscientemente esperada pelo adolescente. O adolescente em plena reorganização vive mudanças, contradições e conflitos cuja evolução está em aberto, podendo desembocar em uma decepção arrasadora ou, ao contrário, em uma progressiva conquista de si próprio.

Diante disto pode-se concluir que a problemática do reconhecimento ou não da depressão na adolescência como um quadro psicopatológico, muitas vezes é uma questão de abordagem.

Segundo a psicanálise, é notável que o adolescente demonstra alguns sintomas apresentados pelo DSM-IV, mas para tal abordagem não é a ocorrência nem a quantidade dos sintomas que importa, e sim o uso desses sintomas para o desenvolvimento do sujeito, para sua economia psíquica. A depressão é necessária como parte do processo para a elaboração da crise da adolescência.

Por conseguinte é necessário que haja um olhar diferenciado por parte dos profissionais da saúde, uma vez que os sintomas/condutas podem ser tanto de âmbito desenvolvimental, correspondendo à crise normal da adolescência, como também podem ser indícios de uma psicopatologia. A psicopatologia peculiar ao grupo etário adolescente caracteriza-se fundamentalmente por alterações na área comportamental, onde o adolescente na impossibilidade de superar seus conflitos com o mundo que o cerca, protesta contra o modo como este está estruturado e tem com objetivo transformá-lo, caracterizando a “síndrome normal da adolescência” citado por Aberastury (1981), que tem no luto uma operação fundamental.

Já a depressão enquanto quadro psicopatológico da adolescência, muito mais rara, denota um fracasso nesta síndrome, ou seja, uma impossibilidade de elaboração dos lutos necessários. Como indica Rassial (1999), “apenas a análise do tipo de luto com o qual se confronta o sujeito permitirá, num segundo tempo, quando a urgência tiver passado, precisar num sentido ou noutro este diagnóstico” (p.135).

Por fim ressalta-se a necessidade da cautela no diagnóstico do adolescente, no que se refere aos sintomas depressivos. Deve-se avaliar a essência da crise da adolescência, assim como a possibilidade de uma patologia, para que o adolescente seja corretamente diagnosticado e tratado.

Referências

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ASSIAL, Jean-Jacques. O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 1999.

Laís Vilela Paque
Leda Mariza Fischer Bernardino
Pós-graduação em Psicologia Clínica: Abordagem Psicanalítica
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

 
   

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